segunda-feira, 7 de julho de 2008


herói no espelho


então...
quem sou eu...
alguém que
sinceramente
gostaria
gostaria de fazer a diferença

salve quem sabe voar a todo o instante
salve quem arrisca a vida por baleias
salve quem atira coquetéis molotov
quem ama o mundo e as pessoas
quem o faz sem se apaixonar
quem vê as coisas
muito além da lente do próprio umbigo
além dos cento e oitenta graus nublados

mas quem sou se esforça
e luta contra o motor da mediocridade
essa máquina
que nos transforma todos em merda

quero aquilo que não tenho
até me emociono e compadeço
derramo lágrimas sinceras pelo alheio
porém, meu verdadeiro pranto
é pelo anti-herói que há em mim
o intelectual incipiente, pseudo-sábio
o herói incipiente, herói sem rosto
o desconhecido
artista rupestre de egoísmos
arquiteto de desculpas

a pálida dúvida
que atormenta
aniquila
pálida como sangue desmaiado
a dúvida que é um deus
um deus mau e blasfemador
minha dúvida deusa e irmã
a desconstruir
meus instintos genéticos
herméticos como maldição
sutis como maldição
minha dúvida
que é o meu oxigênio
vital e envenenado

quem sou?
sou o martelo
contra minha própria cabeça?
sou o flashback em forma de pão?
sou o manjar dos demônios?
sou o holocausto no tabernáculo?
sou o chipanzé vendo TV?
sou o papagaio poeta?
o destruidor de mim
a poeira de mim
a argamassa de mim
a construção da estrela que virá.

(L.F.S.)



terça-feira, 24 de junho de 2008


“Você vai morrer e não vai pro céu;
É bom aprender: a vida é cruel”
(Homem Primata –
do disco “Cabeça Dinossauro”, 1986 / Titãs)


“Filosofar é aprender a morrer”.
(– Montaigne)



O Efeito Morte

Luciano Fortunato Silveira



Numa recente entrevista a um jornal televisivo matinal, em ocasião do seu aniversário de cem anos, Oscar Niemeyer, ateu, responde à inconveniente pergunta do repórter, que dizia “a morte não lhe assusta?”. Niemeyer responde “a morte é uma coisa natural da vida. É melhor levar a vida sem pensar muito nisso. E é até uma coisa meio animal o que vou te dizer, mas, como dizia o Darcy Ribeiro, a vida tem que ser assim: uma mulher do lado – porque mulher é importante – e seja o que deus quiser”.

A postura de José Saramago, também ateu, ao escrever o seu livro As Intermitências da Morte parece ser, numa análise superficial, exatamente o contrário da de Niemeyer. Saramago lança As Intermitências... no alto dos seus oitenta e seis anos de idade, tratando o assunto “morte” de frente, com sarcasmo e atitude filosófica. O livro é uma fábula sobre a morte, abordando com efeito alucinante, e ao mesmo tempo expondo a grande sobriedade do autor, temas como religião e sociedade. A história se passa num país onde a morte “suspendeu suas atividades”. Antes de qualquer análise, vejamos alguns trechos do livro:



Intermitência. s. f. 1. interrupção momentânea, intervalo (Aurélio).


“Ano novo, vida nova.”
“Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja.”
“Questão de ponto de vista, eminência, talvez lá de fora nos estejam a olhar como um oásis, um jardim, um paraíso, Ou um inferno, se forem inteligentes.”
“Se o cardeal morresse durante a operação de apendicite, isso significaria que teria, paradoxalmente, vencido a morte.”
“Que vamos fazer com os velhos.”
“O rosto enrugando-se, prega a prega, igual que uma uva passa, os membros trêmulos e duvidosos, como um barco que inutilmente andasse à procura da bússola que lhe tenha caído ao mar”.
“Toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída”.
“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes demos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca”.
“Por nossa parte, igreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre humanidade aos piores horrores”.
“...oferecer a estes seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver para sempre”.
“...a morte não respeita a gramática”.
“Um dia virão a saber o que é a Morte com letra maiúscula”.
“...a (idéia de que a) morte seria um superior hierárquico de deus, torturava em surdina as mentes e os corações do santo instituto”.
“No seu quarto de hotel, a morte, despida, está parada diante do espelho: não sabe quem é”.


Uma pergunta que se pode extrair sobre a motivação de Saramago para escrever o livro é “teria sido a obra uma tentativa de amenizar os efeitos devastadores de idéia da morte definitiva para alguém que não acredita em uma vida depois dela?”. Possivelmente a resposta seja sim. Diante do posicionamento público de José Saramago, podemos considerá-lo um tipo de “ateu militante”. E o livro em questão seria um tipo de instrumento dessa militância. Pode-se dizer que uma pessoa que está próxima dos noventa anos, está, com isso, próxima da morte. Nisso, o livro se põe como uma espécie de tratado sobre o “problema da morte”. E também com um tipo de “consolo intelectual”, seja isso algo honesto ou não. Enquanto as religiões consolam o homem diante da angústia da finitude, dizendo a ele que ele terá uma vida eterna, os descrentes nessa promessa ficam à mercê das mais variadas conjecturas. A atitude racional parece não resolver o problema da morte, coisa que as religiões sempre conseguiram fazer, em maior ou menor grau.

Contudo, seja entre religiosos ou não religiosos, entre crentes e ateus, o tema “morte” é normalmente evitado. É como se evitássemos tocar em algo que não podemos resolver ou explicar com clareza. A palavra “morte” é de pronúncia proibida em alguns lares mais conservadores em várias partes do Brasil e do mundo. Assim como ocorre com a palavra “câncer”. E poucos percebem que quando se evita a pronúncia de “morte”, se está fazendo o mesmo que faziam os antigos hebreus que não pronunciavam o nome de deus. A cultura da “não-pronúncia” do nome divino está no decálogo de Moisés e está também em outras religiões antigas, monoteístas ou não. Desta forma, ao se evitar o assunto e a palavra morte, se está, inconscientemente, tornando-a um deus.

Saramago, no entanto, de forma surpreendentemente serena, não só aborda o tema de forma provocante, como dedica-se a escrever uma fábula, que é o livro As Intermitências da Morte. No livro, o autor faz uma brincadeira com a questão do paraíso bíblico, o lugar da vida eterna, trazendo esta para o seu país fictício, porém terreno, de forma a explicitar o paradoxo de se desejar algo com o qual, definitivamente, não estamos preparados e não saberíamos lidar: a vida eterna. Em vez de evitar o tema, o homem velho Saramago o encara de forma direta e, sem apresentar soluções, suaviza sua angústia de ateu diante do fim, tomando para si a idéia de que a eternidade do ser não seria melhor que o seu ocaso.

Nas monumentais últimas páginas do livro, o autor rende-se, no entanto, ao sonho e a um profundo lirismo, e, despindo-se da ironia que permeia muitas das paginas anteriores, faz com que a sua personagem principal, a morte, seja vencida pelo amor e seja, assim, humanizada. Os ateus também amam.



*



Num plágio ao livro de Saramago, escrevi um conto para participar de uma seleção do jornal O Estado de São Paulo, comemorando os cinqüenta anos da Bossa Nova. O critério era que fossem mini-contos que contivessem, em alguma parte do texto a frase “não quero mais esse negócio de você longe de mim”, da canção Chega de Saudade, considerada o marco inicial da Bossa Nova. O meu conto é intitulado “Eu, João e a Morte”. É assim:


“Embora eu não seja muito fã de jogos, nada tenho contra aquele lance já clássico de jogar xadrez com a morte. Ainda mais que conheço alguns macetes deste sinistro jogo. Pior seria baralho. Pois em se tratando de cartas a sorte fala mais alto. E a sorte, como se sabe, é parente em primeiro grau da Senhorita Morte, a grande dama, a deusa que todos cultuam, normalmente sem saber. Entre xadrez e cartas, chegamos eu e ela a um consenso: dominó.

No meu cafofo subterrâneo, com os comuns e periódicos tremores causados pelo metrô bem ao lado, na pequena sala iluminada por uma cansativa lâmpada fluorescente econômica, fui eu ao canto onde fica minha jukebox antiga, claro, com duzentos e cinqüenta compactos antigos, claro, no seu interior. Na excêntrica máquina – meu único objeto de valor, além das cabeças de pedra-pomes vindas da Toscana – vários discos de rock’n’roll, algum jazz, uns standards, e ali no meio, o único disco de música brasileira, um compacto de João Gilberto cantando “Chega de saudade”. Tantos discos de rock pro bracinho automático pegar e ele me pega justamente o único disco produzido no hemisfério sul. É a sorte. Então minha adversária me perguntou que música era aquela – e as pedras de dominó já despejadas na mesa. Ela, tão habituada com roqueiros suicidas, não conhecia a Bossa Nova. E eu que pensei que o estilo fosse mais conhecido no nosso globo, e talvez até fora dele, respondo a ela: isso é bossa nova, é muito natural, e me espanta que você não conheça.

Começamos o jogo. Antes da máquina começar o “roquenrou” por vir, os alto-falantes da minha querida máquina encantada começam a esvaziar da sala o samba de João, que canta os últimos versos da canção, “não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Vivo, venci a primeira partida. Acho que João salvou minha vida.”

***

sexta-feira, 6 de junho de 2008



o cão chupando manga



sonhei com o cão chupando manga

sonhei com a manga

vi que animais gostam de frutas

mais do que de ração:

isso que os humanos comem a contragosto

diariamente

vi que a manga, viva no estômago do cão

se integrava em sua alma

vi que ele deixou o caroço

vi que a manga agora está, pra sempre, nua

sonhei com o cão chupando manga

e acordei cansado

...dream is over.



terça-feira, 20 de maio de 2008


A pós-modernidade chega às telas

Blade Runner – Caçador de Andróides inaugura, nos anos oitenta, o cinema pós-moderno americano


Em 1982, ano em que Blade Runner foi lançado em nossos cinemas, eu estava tão envolvido com o estudo do sexo oposto que nem tomei conhecimento do filme. Com 12 anos de idade, Sessão da Tarde, filmes de terror e revistas de sacanagem me interessavam muito mais que qualquer estética cinematográfica revolucionária. Então, só muitos anos depois, numa reapresentação, é que fui, já na condição de cinéfilo, assistir a Caçador de Andróides na telona. E o que senti naquela poltrona do velho cinema é indescritível.

A primeira cena do filme já é acachapante: uma torre cuspindo fogo no céu escuro de uma cidade fria, caótica e futurista, com a bela, forte e perturbadora música de Vangelis ao fundo. Ao fundo nada: a música do grego Vangelis, que está em todo o filme, aparece muitas vezes em “primeiro plano”, transcendendo à cena em si. A cidade de Los Angeles do futuro, com seus prédios piramidais, seus veículos voadores, feita em maquetes, soa mais real que estas animações feitas com uso de computação gráfica de hoje em dia – uma maquete é tridimensional naturalmente e sua presença física é um fato, diferentemente de alguns efeitos cansativos de computador, que quase nunca conseguem um realismo convincente.

Falar da estética de Blade Runner – Caçador de Andróides é pôr lenha em um tema que serve a várias teses, dado o tamanho da riqueza visual e sonora exposta naquele trabalho. Contudo, som e imagem é pouco. Tudo em Blade Runner serve como material de estudo. O filme propõe um estudo sobre a contraluz na fotografia de cinema. Se quisermos uma síntese do cinema noir, ali está. Se quisermos um estudo sobre a presença do anti-herói no cinema; se o caso for estudar a possibilidade do estabelecimento do caos nas sociedades do futuro; ou a revolução das máquinas – como só no primeiro Matrix se fez algo de bom nível – ; se o assunto for a própria pós-modernidade; se pretende-se fazer um estudo sobre a morte e a imortalidade, o que, pra mim, são os temas centrais do filme... Enfim, Blade Runner é um “filme-estudo”.

O autor da estória de Caçador de Andróides é o falecido escritor Phillip K. Dick, criador também das narrativas filmadas em Total Recall, de Paul Verhoeven, e em Minority Report, de Steven Spielberg. Mas o pioneiro em filmar Phillip Dick foi mesmo o irregular cineasta Ridley Scott, que tem em seu currículo um outro marco da ficção-científica, que é Alien, o Oitavo Passageiro, além do mega-sucesso Gladiador. Contudo, é indiscutível que o ponto alto de Ridley Scott foi mesmo Blade Runner. Foi naquele momento que o criativo, produtivo e injustiçado autor de ficção-científica, Dick, foi revelado ao mundo em sua primeira e mais contundente adaptação para o cinema, através da lente caótica de Scott.

A trama de Blade Runner não é complexa, ao contrário do que alguns pensaram. Um “caçador de andróides” é contratado para encontrar e exterminar um grupo de replicantes (como são chamados os andróides do filme) que fugiram de uma colônia, numa rebelião. Em sua caçada, ele, o detetive Deckard – vivido por Harison Ford –, faz uma imersão na L.A. abandonada, úmida e marginal do futuro. Num futuro em que só as classes menos favorecidas habitam a Terra. As pessoas com poder aquisitivo iriam morar em marte. No percurso, apaixona-se pela replicante Rachel (Sean Young). O tema composto para o casal é uma das mais lindas e inebriantes músicas de amor compostas para cinema, com uma delicada melodia feita no saxofone – hoje o tema é tocado em propagandas de motel. O sax da canção faz um bom contraponto com o resto de toda a trilha do filme, que tem bases predominantemente eletrônicas. Aliás, o contraste é a tônica de toda a obra. O contraste relativizando bem e mal é um exemplo disso: os vilões do filme – no caso os andróides – parecem mais humanos que as pessoas de verdade.

Estava em Blade Runner a materialização da chegada da pós-modernidade ao cinema americano, onde – ao contrário do que se propunha com aquela “Era Reagan”, com os seus “Rambos” – o maniqueísmo foi descartado sem receios, primando-se o questionamento.



Luciano Fortunato escreve para http://www.cronicascariocas.com/


segunda-feira, 12 de maio de 2008


trilogia psicolor
*
eu, canalha

na minha relva multicor
piso no tapete de pétalas
sobre os vermes
sobre as folhas
sobre o húmus
e sobre aquele homem que pensei ser
nada na verdade sei
a não ser que ele é um canalha
um bondoso canalha informal
ser canalha é pisar em cores
e escarrar arco-íris pastéis.



virgulismo

vou te sangrar, seu filho-da-puta
te afogo no leite de cabra safada
no leite envenenado da donzela
leite induzido
sangue induzido
mel voluntário de virgem solta
lava de vulcão marinho
vou te sangrar, filho-da-puta
derramar tua alma cor-de-rosa.



psicodrama

maio de 68
dezembro de 69
fogo de maio
fumaça de dezembro
espuma dos anos
fog
frogs
se sorri do passado
alegria sincera
alegria suicida
sarcasmo branco
direitos civis
capital dos fracos
e dos amadores

eu não existia
eu ainda não havia
e não havia sido
beijado
pela música feminina dos dias
em maio de 68

primaveras ensolaradas
me esperem
eis-me aqui:
e minha bandeira
é verde como o sangue.


***


luciano fortunato, músico e web-escritor,

escreve para o site crônicas cariocas

quarta-feira, 7 de maio de 2008


“Louvado seja o homem
Ele existe no leite e vive entre lírios
E ouve-se na música do seu violino,
No leite, e no vazio cremoso

Louvada seja a pétala interna da carne
não exposta
do pensamento suave

Louvada seja a desilusão, o ondular
Louvado seja o Sagrado Coração da Eternidade
Louvado seja eu, escrevendo,
já morto, e novamente morto”.
(Jack Kerouak)



“Não dá pra ser esperto e amar ao mesmo tempo”
(Bob Dylan)