Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008



O Bertolucci que me faltava

Eu, cinéfilo de meia-tigela, não conhecia La Luna




Foi há muito tempo – há muito tempo mesmo – numa sessão das oito no extinto Cine Guanabara que estava eu, acompanhado de um amigo e sua família católica, num cinema completamente lotado para assistir a Jesus de Nazaré, de Franco Zefirelli. Contando há quem não acredite. Depois de passarem o saudoso programa Canal 100, com os jogos de futebol magistralmente registrados em película, vieram os traillers, que, para espanto geral, não eram, naquela noite em especial, muito ortodoxos, ou seja, não eram muito católicos – entre a meia dúzia de filmes anunciados antes da atração da noite, havia pelo menos 3 deles com cenas de sexo. Uma cena com um casal fazendo amor na praia com seus corpos na penumbra, outra com um casal nu, agarrado, rolando na grama, outra com um bacanal num saveiro e um rapaz se masturbando freneticamente. Um dos filmes eu me lembro do nome: O Sol dos Amantes, do qual nunca mais ouvi falar. Bem. O pai católico à minha esquerda tapava os olhos da filha de 8 anos. Os adolescentes nas fileiras de trás assoviavam de forma entusiasmada. Não é sonho. Isso aconteceu mesmo. E estávamos ainda na ditadura militar, saibam. Só que o Cine Guanabara era um tipo de território livre, anacronicamente às avessas. À beira da falência, aceitava menores pagantes para assistir a pornochanchadas. Eu mesmo fui um deles, sempre na esperança – e quase sempre na certeza – de poder entrar pra ver filmes proibidos para menores. Mas o caso dos traillers na sessão de Jesus de Nazaré foi mesmo o cúmulo da falta de organização e de vergonha.

Quanto às famílias católicas, ao zeloso pai a tapar os olhos da filha, eu fico imaginando o que sentiriam se assistissem La Luna, de Bernardo Bertolucci. Eu não sabia, La Luna foi exibido nesta mesma época naquele cinema. Outro dia uma amiga me falou sobre o filme, que assistiu naquela sala e gostou muito. Me surpreendeu que ela tivesse mesmo gostado do filme, já que, embora eu ainda não o conhecesse, sabia se tratar de um filme com uma trama que envolvia o assunto incesto. Um detalhe importante é que minha amiga é evangélica. Isso poderia fazer pensar que ela atiraria pedras no filme. Mas, ao contrário, ela me descreveu o filme como muito belo. Mas há um detalhe sobre essa minha amiga. Ela é muito ligada a temas psicológicos, leitora de Freud, Piaget e toda sorte de livros de psicologia. Isso explica, em parte, o fenômeno. Voltarei a falar sobre o filme com ela, qualquer dia desses.

La Luna, produção americana dirigida por Bernardo Bertolucci, rodada em Roma, produzida em 1979, é um filme que não poderia ter passado tão despercebido como passou. Um moralismo da indústria cinematográfica – ou do próprio público, o que é mais provável – pode explicar o fato dum filme brilhante como este viver nesse ostracismo. Só no último domingo tive a chance de assisti-lo em meu DVD. Era o Bertolucci que faltava pra mim. O filme praticamente não é citado em listas, por isso não havia gerado meu interesse – eu, um pequeno fã da obra do grande diretor italiano vivo. Como eu pude não ter visto La Luna antes? É assim mesmo. Há também filmes do Wood Allen os quais ainda não vi. Até o emblemático Persona, de Ingmar Bergman, só fui assistir há poucas semanas, veja só.

Não é a primeira vez que escrevo sobre Bertolucci e sexo. Quando se pensa nesses temas associados, logo nos vêm à mente Último Tango em Paris, Beleza Roubada, e Os Sonhadores. Assistindo a esses 3 filmes temos a nítida impressão de que poucos cineastas falam de sexo com tanta contundência. Mas é importante evidenciar que o sexo não é tudo nesses filmes, e sim parte inseparável de um todo, como é a vida. De qualquer forma, para Bertolucci são preferíveis estórias que envolvam famílias atípicas. E para minha surpresa, o último limite da atipicidade eu viria encontrar, tardiamente, no filme La Luna. Com uma atuação hipnótica da, infelizmente, quase desconhecida atriz Jill Clayburgh, La Luna conta a estória de Caterina, uma mulher que vive intensamente uma relação de afeto (amor, ódio, busca de auto conhecimento) com seu único filho. Joe, o belo rapazinho de dentes irregulares, o menino de cidadania americana, não sabe que é filho adotivo por parte de pai, assim com não sabe que é italiano, e filho de um italiano. Com a morte do infeliz pai americano – é impressionante a cena do enterro –, mãe e filho viajam para a Itália onde buscam reencontrar o rumo das suas vidas. Respeitada cantora de ópera, Caterina vê diante da nova vida um vigor esquecido. Aprimora seu canto, intensificando-o, e sendo cada vez mais reconhecida por seu talento. Tenta reaproximar-se afetivamente do filho – algo que houvera negligenciado em sua infeliz vida na América. Nesta busca pelo entendimento do (e com o) filho, descobre que ele está viciado em heroína. Então abandona a música – ofício no qual depositara toda sua paixão – para dedicar-se ao confuso e dependente rapaz. No entanto, a não menos confusa e dependente mãe, com essa intensa aproximação, deixa aflorar em si sentimentos em relação ao filho que personificam o mais rígido dos tabus sexuais, numa montanha russa de sentimentos, que falam de culpa e desejo, de interação entre presente e passado. Talvez falem de um passado mal resolvido à costa do Mediterrâneo.

Sim, perturbador e cheio de humanidade, La Luna é, sem dúvida, o mais chocante filme de Bertolucci. E certamente um dos mais chocantes filmes já produzidos. Um prato cheio, uma refeição completa para os freudianos, e indigesta para os puritanos. O que diria o papai à sua filhinha diante de algumas cenas do filme? O que diriam aos seus filhinhos as cuidadosas mães que jamais pararam para pensar no assunto. Que assunto? O fio, tenso ou frouxo, porém irrompível, que liga mães e filhos, do nascimento até sempre. A frágil fronteira entre os sentimentos que regem o nosso estar social e sexual, orientando nosso comportamento regulado por mecanismos morais de defesa. A proximidade entre libido e afeto. De fato. Não sejamos radicais. Este não é mesmo um filme para se assistir em família, depois da novela. Ele não deve, na verdade, ser assistido por qualquer pessoa. Seu público é específico. A intensa viagem psicológica de La Luna, me faz agora ver o eterno Último Tango em Paris como um mero passeio sensual – e olha que estou falando deste que é um clássico indiscutível do cinema erótico.
E ainda há tempo para outros temas em La Luna. A música, por exemplo, é de uma força impressionante no filme. Em alguns momentos ela é algo orgânico para a trama, como a seqüência da chegada do piano, ou como na emocionante cena final. Os bastidores da ópera ocupam também lugar de destaque, em cenas especialmente atraentes – poucos filmes não-musicais tiveram sets de ópera tão bem cuidados. Toda a relação da personagem central com sua própria voz é de uma emocionante musicalidade. Até mesmo quando grita, Clayburgh é musical. O contraste de culturas também é tocado pelo filme. O rapaz americano, com seus tênis All Star, é mostrado como um corpo estranho nas ruas de Roma. Sofre com a solidão. E como se sentem solitários Caterina e Joe...

Com roteiro original do próprio Bertolucci (toda e estrutura e construção dos personagens pode fazer-nos pensar que se trate de um roteiro adaptado), e a bela, e em muitos momentos inventiva, fotografia de Vittorio Storaro, este é o filme que salvou meu domingo de pré-verão. Apesar do tema espinhoso e enfumaçado, o filme é, na verdade, um domingo. Um domingo de sol ao Mar Mediterrâneo.

Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008



o homem bom


o homem bom desafia lúcifer
o funcionário de deus
lúcifer, o mordomo,
o espião, o capitão,
o inquisidor de deus

o homem bom cheira a flor
o homem bom inveja os heróis
por saber não poder ser tão herói como almeja
pois o homem bom é um poço da orgulho e vaidade
e tem em si o inimigo mais querido

o homem bom adora as mulheres
adoração de curvar-se mesmo
ele traz lembranças do calor do útero materno
ele reverencia cada útero que encontra em seu caminho
pois um útero para ele é um deus

o homem bom jamais esquece seus erros
é escravo da sua imperfeição
mas perdoa aos outros como gosta de se perdoar
tropeça, sangra o dedão
e segue de pé, na contramão de uma trilha

o homem bom pensa nos outros homens e mulheres
e o faz em tempo integral
e não esquece de nada, por saber
que a memória vale mais que a hora
hora é éter: memória é ouro

é mau o homem bom
é egoísta como um santo o homem bom
quer que o mundo fique melhor pra si, vejam só
mas um mundo melhor para todos
é apenas um efeito colateral do seu mundo perfeito.

(manhã de domingo, 12 de outubro de 2008)

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008


Um triste aniversário

Luciano Fortunato Silveira
fortsilveira@yahoo.com.br


Ao começo deste mês outubro faz um ano do trágico caso dos três rapazes que foram mortos carbonizados, próximos à via férrea por onde trafegam grandes riquezas que passam por nosso município sem que delas desfrutemos. Na ocasião escrevi um texto sobre o ocorrido. O meu texto foi rejeitado por dois órgãos de comunicação regionais. Talvez em face desse ufanismo que nos faz pensar que vivemos em um paraíso, onde reina a paz, a ética e a boa moral. Um deles me propôs até a mudança de uma frase que foi julgada inadequada. E quando ao título que naquele momento dei à matéria “O dia em que a cidade sorriu diante da morte”, eu acrescentaria, hoje, um subtítulo importante, ficando “O dia em que a cidade sorriu diante da morte: ou pelo menos uma parte dela”. Agora o texto está sendo publicado na íntegra, como segue:

“O dia em que a cidade sorriu diante da morte

Foi na nossa querida cidade, Mendes, mas poderia ter sido em qualquer pacata cidade do nosso sul-fluminense, do Brasil ou do mundo.

Mendes sorriu. Três rapazes mortos eletrocutados. Seus corpos carbonizados, e, diante do quadro, uma platéia a comemorar a morte deles. Fotos espalhadas por toda a cidade. A tragédia transformada em espetáculo. Parece que nossos pacatos moradores não são muito diferentes dos de qualquer metrópole: são também insensíveis e cruéis.

Vivemos em um país dito cristão. Todo cristão deve conhecer a passagem bíblica em que Jesus proclama “...aquele que não tiver pecado que atire então a primeira pedra”. No entanto, a multidão de “santos” sentiu-se no direito de rir da desgraça alheia. Como se todos nós vivêssemos rigorosamente dentro da lei. Eu pergunto: quem nunca comprou um CD pirata ou outro produto ilegal? quem nunca se apropriou de absolutamente nada que não era seu? quem nunca praticou sonegação fiscal? quem de nós exige nota fiscal por um cafezinho ou um drops? E é bom que se saiba que quando deixamos de pedir uma simples nota fiscal – e nossos estudantes nem sabem o que é isto –, estamos desviando dinheiro que poderia estar indo para a saúde e para a educação, por exemplo.

Pois bem. Num sistema falho e corrompido – do qual somos coadjuvantes – ainda temos que conviver com a hipocrisia de parte da população que se considera gente 100% honesta, e que acha mesmo que a morte dos rapazes foi justa e oportuna. Alguns chegaram a lamentar o fato de um deles ter sobrevivido. Foram cabos elétricos. Mas se eles tivessem sido assassinados por uma milícia paramilitar – como essas que há nas favelas do Rio – o povo mendense não estaria menos satisfeito. Não me refiro a todo cidadão mendense, obviamente.

Aqueles jovens não nasceram ladrões. Não nasceram delinqüentes. E não tiveram tempo de se redimir. E, minha gente, isso não é engraçado. Não é satisfatório. Nenhuma morte pode ser considerada satisfatória. Se nossos adultos e anciãos fossem mais eficientes e justos (e não me refiro aos pais deles, e sim a toda nossa sociedade), casos como este poderiam ser evitados. Países com alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) – como Canadá e Finlândia – possuem baixíssimo índice de criminalidade. Praticamente não há roubos e furtos nas cidades finlandesas. Quanto a nós? Não temos nesse país educação de qualidade, não temos capacitação profissional, não temos empregos disponíveis, não temos distribuição de terra e renda: somos uma sociedade falida em todos os sentidos. Então resolvemos nossa angústia diante desta impotência como cidadãos, comemorando a morte de três rapazes pobres que tentavam furtar cabos. Estamos de parabéns.”

Na época em que o texto foi escrito, eu não havia ainda atentado para o fato de que o crime de Vilipêndio a Cadáver é punível com prisão. Muitos dos aviltadores que estavam no local do acontecimento, onde estavam aqueles corpos, poderiam estar hoje presos.

Penso, de maneira otimista, que Mendes não deve ser um resumo do mundo caótico e cruel em que vivemos, um micro-cosmo numa selva sócio-cultural onde tudo se repete, variando apenas em número e grau. Não, senhoras e senhores. Cabem, sei que sim, muito mais coisas, boas e belas, entre nossas discretas montanhas verdes. Isso depende, claro, da forma como usaremos a nossa tão conhecida paz.

(L.F.S.)

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008


Viva O Rappa!

Perdoemos sete vezes – ou mais – os críticos que não sabem o que dizem.



Se pensarmos que os Beatles foram reprovados por boa parte dos críticos musicais contemporâneos seus, não nos incomodaremos com a morna recepção dada recentemente ao novo disco d’O Rappa – nós, que somos fãs do grupo. E me perdoe quem não gosta.

Há hoje duas correntes visíveis e importantes do jornalismo musical brasileiro. Vemos aqueles jornalistas que desprezam tudo aquilo que é sucesso de público, dando valor e tentando realçar os bons músicos que não conseguem grande projeção. Eles gostam de “samba de raiz”, músicas regionais, experimentalismos quaisquer, além de nomes que fizeram sucesso no passado e foram esquecidos. É um grupo de escritores, sem dúvida, na maioria das vezes, bem intencionado, que prezam a ética e a coerência. Uma outra corrente é daqueles que ficam esperando – e até alardeando – um “novo Jimi Hendrix”, um “novo Kurt Cobain”, um “novo Cazuza”, uma nova Gal Costa” – como se Gal não estivesse viva –, num insensato esforço de comparação. Eles são sonhadores nostálgicos, e, não raro, têm saudade de uma época que não viveram. Gente boa. Mas o fato é que esses dois exemplos de crítico musical não são do tipo – raro – que é capaz de fazer um grande elogio a um grupo que esteja sempre em evidência na mídia, como O Rappa, ainda que este apresente um trabalho de grande qualidade. Eles são do tipo que não deixariam os Beatles serem os Beatles – guardadas, obviamente, pois não sou trouxa, as devidas proporções entre Beatles e Rappa.

Sete Vezes, disco novo da banda carioca é, com licença, bom pra caralho. É um disco poderoso. Isso mesmo: poderoso. Os pontos positivos encontrados no novo trabalho são inúmeros. O grupo não perdeu a pungência das letras – o que alguns esperavam com a saída do genial Marcelo Yuka, 3 discos atrás –, não perdeu sua originalidade, adquiriu um entrosamento e uma técnica instrumental melhor – o que já se mostrava no disco acústico e pode ser sentido neste Sete Vezes à primeira audição, com os bons “riffs” de guitarra de Xandão e com o baixo límpido e firme de Lauro Farias. O multi-instrumentista Marcelo Lobato continua criando boas texturas com seus teclados e “derivados”, e a voz de Falcão é praticamente a mesma do primeiro disco da banda, quando eles eram apenas uma “reggae band”, só que, agora, com direito a maior liberdade às suas ininteligibilidades fonéticas – meu deus, mas o que é isso que eu falei?

Faixas – No primeiro verso do disco, Falcão reclama, com um lirismo místico inusitado, cantando “Meu santo tá cansado”, na canção que tem este título. Nesta faixa de abertura já se nota equilíbrio sonoro, num arranjo rico em detalhes e ruídos diversos, sem que o resultado fique confuso ou “estourado”. Uma guitarrinha meio “vintage” abre a segunda faixa Verdade de Feirante. Aliás, a guitarra de Xandão se transmuta no decorrer da música em algo à la The Edge, do U2. Na discografia da banda este é o disco em que o guitarrista
apresenta o seu melhor trabalho como músico – sem virtuosismo, porém eficiente. A faixa Meu Mundo é o Barro, um reggae típico, conta com uma letra que remete ao velho estilo do fundador da banda, o ex-Rappa, Yuka, em seus primeiros trabalhos, num tipo de crônica de homem simples e excluído. A canção começa: “Moço/ peço licença/ eu sou novo aqui/ não tenho trabalho nem classe/ eu sou novo aqui...”. E prossegue: “...sou quase um cara/ não tenho cor nem padrinho/ nasci no mundo /sou sozinho...”. Na seqüência a letra toca também na religiosidade: “...tentei ser crente/ mas meu Cristo é diferente/ a sombra dele é sem cruz...”. A faixa que batiza o álbum, 7 Vezes, é primorosa. É, diferentemente da maioria das músicas d’O Rappa, uma canção de amor – ao menos assim me pareceu. O ritmo é lento é ultra-agradável e o resultado é harmonioso. Monstro Invisível, que foi a música inicial de trabalho do álbum, já é tocada em todo o país. O refrão “...vejo a minha história com a sua comungar...” é incógnito e vigoroso. É claro que o monstro invisível do título não é o vocalista, mas, vou te falar: Falcão canta como um monstro, magistralmente – se não como um grande cantor, como um magnífico vocalista de rock. A décima faixa é Súplica Cearense, da obra do enigmático compositor baiano Gordurinha, que fez carreira no rádio nos anos 50. Seus maiores sucessos são Vendedor de Caranguejo e Chiclete com Banana. Gordurinha influenciou Zé Ramalho, Novos Baianos, Gilberto Gil e até Chico Science. Aqui em ritmo de reggae, Súplica Cearense é uma música que não pode deixar de ser notada, como um tipo de canção que já valeria o preço de qualquer disco. Homenagem oportuna que enriquece ainda mais este belo e extraordinariamente bem gravado novo disco d’O Rappa, banda da qual o Rio de Janeiro e o Brasil devem se orgulhar.
Sim, é verdade, se orgulhar. Sei que há hoje um grande preconceito contra coisas associadas ao funk, como é o caso do hip-hop. E O Rappa é uma banda que mescla, essencialmente, reggae, rock e hip-hop. Todos nos orgulhamos do samba, que tem raízes africanas; nos orgulhamos dos ritmos nordestinos, com um forte pé na Europa medieval; e reverenciamos grandes roqueiros brasileiros como Raul Seixas, mesmo sendo rock uma cultura nascida nos Estados Unidos. E é assim mesmo, não há cultura que não seja um processamento de influências, se formos pensar bem. Raul cultuava Elvis. Elvis cultuava o blues. O rock é uma atualização do blues. É, blues... Assim como jazz... São crias estadunidenses. Sem blues não haveria rock. Sem rock não haveria Beatles, sem Beatles não haveria a Tropicália e o Clube da esquina, por exemplo. A música popular viajou séculos até chegar onde estamos hoje, com o vasto cardápio do qual dispomos, onde uma banda pode ser naturalmente eclética, bebendo de fontes diversas, e ao mesmo tempo soar originalíssima e coesa como O Rappa. Se uma das melhores bandas pop-rock dos anos 90 é, de fato, o Rage Against the Machine, que combinou hip-hop e rock, e foi tremendamente influente, temos, provavelmente, numa linha parecida, algo ainda melhor: uma banda que acrescentou à mistura a voz da periferia carioca, o grito do cidadão oprimido e trabalhador, a voz do poeta popular brasileiro, na nossa invejável língua portuguesa.


Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

Texto escrito para o site Crônicas Cariocas
http://www.cronicascariocas.com/


Comentarista, sim. Crítico, não.


Meu pequeno museu de novidades



Após quase dois anos escrevendo sobre música para este super-elegante website, é provável que algum dos meus poucos leitores esteja a se perguntar “o que esse cara ouve em casa?”. Bem. É apenas uma suposição. Talvez ninguém pergunte isso. Me baseio no fato de que eu mesmo já me perguntei várias vezes o que os críticos gostavam de ouvir “de verdade”, fora das resenhas submetidas, como se supõe, a “obrigações estético-ideológicas” do jornalismo musical fascista. Não que eu também não seja vítima dessa síndrome de “inculcação” de gostos. Longe disso. Sou manipulado também. Contudo, dentro desse sistema de manipulação estética, crio meus “gostos” pessoais, que são muito, muito vastos, onde cabem Miles Davis, Belchior, Fábio Júnior, Benito di Paula e A-ha.

Eu não sou crítico musical, sou apenas um ouvinte de música e um modesto compositor, e vou até fazer uma confissão aqui que me descredibiliza: estou sem ouvir rádio há quase dois anos. E, na minha insignificância de “comentarista” de música, comentarei brevemente sobre o que tenho ouvido no último ano e meio, nas minhas feias, porém lindas, caixas acústicas de madeira.

Algumas notas – Acho que o “Sim”, da Vanessa da Mata, foi, verdadeiramente, o disco popular nacional mais importante do ano passado. Sensível, bem gravado, cheio de swing, feminino, autoral, confessional. Toda a badalação foi merecida. Aguardando estou o momento de assistir ao DVD da morena.

No começo de 2007 (e final de 2006) fiz grandes descobertas, graças ao sistema anárquico de compartilhamento de músicas na web, do qual sou defensor, com destaque para o nosso querido E-mule. E é isso aí. Tá sem grana? Vai lá e baixa o disco que tanto te interessa – não está roubando, mas, sim, “pegando” de um “amigo” que está disponibilizando aquilo. Embora eu adore entrar em loja de disco e comprar, é óbvio que não posso adquirir todos aqueles que desejo e “preciso” ouvir. Então, fazer o quê?

Antes de baixar da Internet, e ouvir pra crer, eu não compraria, por exemplo, um CD dos britânicos Arctic Monkeys. Agora, posso comprar de ouvidos fechados, pois o troço é muito bom. Um rock caótico, esparramado, cru, com um vocalista que me lembra muito o Lennon – eu acho. Não há virtuosismo: só um som nervoso e ao mesmo tempo simpático. E boas melodias também, não posso esquecer disso. // Outra grande descoberta foi a banda (americana? canadense?) Wilco. Eu já conhecia uma ou outra música do Wilco antes de baixar mais coisa deles. Mas agora... puxa vida... Depois de conhecer mais da banda eu digo que são excelentes. Seu último disco, “Sky blue sky”, é primoroso. Sabe aquele som novo com cara de velho? Pois é. Um pouco de country, um muito de blues, uma guitarra alucinógena e uma voz doce. Uma puta banda. // Um amigo me deu dois CDs da banda francesa Nouvelle Vague. E, vou te contar, ele me salvou da mediocridade. Quanta ignorância minha... O primeiro disco do Nouvelle Vague é de 2004 e só há dois meses os descobri. Isso é uma vergonha. Sabe como é o som? Pra quem não sabe, é o seguinte: um grupo de franceses apaixonados por punk, new wave e bossa nova, gravam covers de bandas como Joy Division , The Clash, The Cure, Depeche Mode, Dead Kennedys... tudo na voz de excelentes cantoras, que se revezam, cantando os sucessos, na maioria das vezes, executados em ritmo de bossa nova. Sem dúvida alguma, é a melhor bossa nova feita por gringos que eu já ouvi. Como escrevi no título de uma matéria para esta revista eletrônica, é uma “bossa nova punk”. Gente: ouçam Nouvelle Vague! // Na seção trilha sonora, ouço com prazer a trilha do filme Richard Linklater, Wanking Life, que, como tudo aqui, não tem nada de novo, composta pela Tosca Tango Ochestra. A Tosca... não é uma orquestra propriamente dita, mas um pequeno grupo de músicos que tocam tango com roupagem jazística. O resultado é delicioso, e, sim, novo. Pega bem com vinho. // Outro amigo me presenteou com os sete álbuns do Creedende Clearwater Revival. Mais uma vez me deparo com minha, cada vez mais evidente, ignorância musical. Eu só conhecia os hits do grupo. Mas que coisa... Estou apaixonado agora. Todos os discos são impecáveis. Tô sentindo que o som deles pode ter influenciado profundamente o Led Zeppelin. Querendo, grave qualquer um dos sete – todos são muito legais. Mas fuja das coletâneas. Pois nessas você vai perder as deliciosas faixas com blues de oito minutos, cheios de experimentações. É um rock básico. Mas dizer básico é pouco. É muito mais que isso. O Creedence parece ter feito uma ponte entre o rock tradicional dos anos 50 e 60, e o que viria, com hard rock como o conhecemos. // Na minha onda retrô, tenho aproveitado para preencher alguns hiatos auditivos, como o disco “I Got Dem’OI Kozmic Blues Again Mama!”, da minha grande dama Janis Joplin, que contém a canção “Try”. Gravado em 1969, ano em que nasci, o disco é lindo. Mostra que, além de “bluseira”, Janis deu gás também à soul music. // O papo está se alongando e não vou mesmo poder contar todas as coisas legais que tenho ouvido – na verdade mal comecei.

Acho que os arrojados e belíssimos últimos discos de Caetano e Djavan não tiveram a atenção merecida – principalmente o do Djavan, “Matizes”. Contudo, claro, há muito mais gente que merecia aparecer e não aparece, ou aparece muito pouco. O mercado ainda é cruel. Tá mais democrático, mas ainda é uma selva. E, diante do estado anárquico (e bacana) em que estamos vivendo, os nossos medalhões da MPB não têm muito do que reclamar, na verdade. Há, por exemplo, exímios compositores, instrumentistas e intérpretes de samba no Rio de Janeiro que ainda não saíram da garagem (digo, dos bares) e mantém sua música como hobbie, por força das circunstâncias mercadológicas.

Queixas à parte... Minha grande expectativa está para o registro em DVD dos shows de Marisa Monte, realizados no ano passado. Isso, me perdoem meus queridos amigos piratas da grande rede, eu faço questão de comprar na loja, “original”, no plástico, lacrado, e com papel de presente.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008


herói no espelho


então...
quem sou eu...
alguém que
sinceramente
gostaria
gostaria de fazer a diferença

salve quem sabe voar a todo o instante
salve quem arrisca a vida por baleias
salve quem atira coquetéis molotov
quem ama o mundo e as pessoas
quem o faz sem se apaixonar
quem vê as coisas
muito além da lente do próprio umbigo
além dos cento e oitenta graus nublados

mas quem sou se esforça
e luta contra o motor da mediocridade
essa máquina
que nos transforma todos em merda

quero aquilo que não tenho
até me emociono e compadeço
derramo lágrimas sinceras pelo alheio
porém, meu verdadeiro pranto
é pelo anti-herói que há em mim
o intelectual incipiente, pseudo-sábio
o herói incipiente, herói sem rosto
o desconhecido
artista rupestre de egoísmos
arquiteto de desculpas

a pálida dúvida
que atormenta
aniquila
pálida como sangue desmaiado
a dúvida que é um deus
um deus mau e blasfemador
minha dúvida deusa e irmã
a desconstruir
meus instintos genéticos
herméticos como maldição
sutis como maldição
minha dúvida
que é o meu oxigênio
vital e envenenado

quem sou?
sou o martelo
contra minha própria cabeça?
sou o flashback em forma de pão?
sou o manjar dos demônios?
sou o holocausto no tabernáculo?
sou o chipanzé vendo TV?
sou o papagaio poeta?
o destruidor de mim
a poeira de mim
a argamassa de mim
a construção da estrela que virá.

(L.F.S.)



Terça-feira, 24 de Junho de 2008


“Você vai morrer e não vai pro céu;
É bom aprender: a vida é cruel”
(Homem Primata –
do disco “Cabeça Dinossauro”, 1986 / Titãs)


“Filosofar é aprender a morrer”.
(– Montaigne)



O Efeito Morte

Luciano Fortunato Silveira



Numa recente entrevista a um jornal televisivo matinal, em ocasião do seu aniversário de cem anos, Oscar Niemeyer, ateu, responde à inconveniente pergunta do repórter, que dizia “a morte não lhe assusta?”. Niemeyer responde “a morte é uma coisa natural da vida. É melhor levar a vida sem pensar muito nisso. E é até uma coisa meio animal o que vou te dizer, mas, como dizia o Darcy Ribeiro, a vida tem que ser assim: uma mulher do lado – porque mulher é importante – e seja o que deus quiser”.

A postura de José Saramago, também ateu, ao escrever o seu livro As Intermitências da Morte parece ser, numa análise superficial, exatamente o contrário da de Niemeyer. Saramago lança As Intermitências... no alto dos seus oitenta e seis anos de idade, tratando o assunto “morte” de frente, com sarcasmo e atitude filosófica. O livro é uma fábula sobre a morte, abordando com efeito alucinante, e ao mesmo tempo expondo a grande sobriedade do autor, temas como religião e sociedade. A história se passa num país onde a morte “suspendeu suas atividades”. Antes de qualquer análise, vejamos alguns trechos do livro:



Intermitência. s. f. 1. interrupção momentânea, intervalo (Aurélio).


“Ano novo, vida nova.”
“Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja.”
“Questão de ponto de vista, eminência, talvez lá de fora nos estejam a olhar como um oásis, um jardim, um paraíso, Ou um inferno, se forem inteligentes.”
“Se o cardeal morresse durante a operação de apendicite, isso significaria que teria, paradoxalmente, vencido a morte.”
“Que vamos fazer com os velhos.”
“O rosto enrugando-se, prega a prega, igual que uma uva passa, os membros trêmulos e duvidosos, como um barco que inutilmente andasse à procura da bússola que lhe tenha caído ao mar”.
“Toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída”.
“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes demos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca”.
“Por nossa parte, igreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre humanidade aos piores horrores”.
“...oferecer a estes seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver para sempre”.
“...a morte não respeita a gramática”.
“Um dia virão a saber o que é a Morte com letra maiúscula”.
“...a (idéia de que a) morte seria um superior hierárquico de deus, torturava em surdina as mentes e os corações do santo instituto”.
“No seu quarto de hotel, a morte, despida, está parada diante do espelho: não sabe quem é”.


Uma pergunta que se pode extrair sobre a motivação de Saramago para escrever o livro é “teria sido a obra uma tentativa de amenizar os efeitos devastadores de idéia da morte definitiva para alguém que não acredita em uma vida depois dela?”. Possivelmente a resposta seja sim. Diante do posicionamento público de José Saramago, podemos considerá-lo um tipo de “ateu militante”. E o livro em questão seria um tipo de instrumento dessa militância. Pode-se dizer que uma pessoa que está próxima dos noventa anos, está, com isso, próxima da morte. Nisso, o livro se põe como uma espécie de tratado sobre o “problema da morte”. E também com um tipo de “consolo intelectual”, seja isso algo honesto ou não. Enquanto as religiões consolam o homem diante da angústia da finitude, dizendo a ele que ele terá uma vida eterna, os descrentes nessa promessa ficam à mercê das mais variadas conjecturas. A atitude racional parece não resolver o problema da morte, coisa que as religiões sempre conseguiram fazer, em maior ou menor grau.

Contudo, seja entre religiosos ou não religiosos, entre crentes e ateus, o tema “morte” é normalmente evitado. É como se evitássemos tocar em algo que não podemos resolver ou explicar com clareza. A palavra “morte” é de pronúncia proibida em alguns lares mais conservadores em várias partes do Brasil e do mundo. Assim como ocorre com a palavra “câncer”. E poucos percebem que quando se evita a pronúncia de “morte”, se está fazendo o mesmo que faziam os antigos hebreus que não pronunciavam o nome de deus. A cultura da “não-pronúncia” do nome divino está no decálogo de Moisés e está também em outras religiões antigas, monoteístas ou não. Desta forma, ao se evitar o assunto e a palavra morte, se está, inconscientemente, tornando-a um deus.

Saramago, no entanto, de forma surpreendentemente serena, não só aborda o tema de forma provocante, como dedica-se a escrever uma fábula, que é o livro As Intermitências da Morte. No livro, o autor faz uma brincadeira com a questão do paraíso bíblico, o lugar da vida eterna, trazendo esta para o seu país fictício, porém terreno, de forma a explicitar o paradoxo de se desejar algo com o qual, definitivamente, não estamos preparados e não saberíamos lidar: a vida eterna. Em vez de evitar o tema, o homem velho Saramago o encara de forma direta e, sem apresentar soluções, suaviza sua angústia de ateu diante do fim, tomando para si a idéia de que a eternidade do ser não seria melhor que o seu ocaso.

Nas monumentais últimas páginas do livro, o autor rende-se, no entanto, ao sonho e a um profundo lirismo, e, despindo-se da ironia que permeia muitas das paginas anteriores, faz com que a sua personagem principal, a morte, seja vencida pelo amor e seja, assim, humanizada. Os ateus também amam.



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Num plágio ao livro de Saramago, escrevi um conto para participar de uma seleção do jornal O Estado de São Paulo, comemorando os cinqüenta anos da Bossa Nova. O critério era que fossem mini-contos que contivessem, em alguma parte do texto a frase “não quero mais esse negócio de você longe de mim”, da canção Chega de Saudade, considerada o marco inicial da Bossa Nova. O meu conto é intitulado “Eu, João e a Morte”. É assim:


“Embora eu não seja muito fã de jogos, nada tenho contra aquele lance já clássico de jogar xadrez com a morte. Ainda mais que conheço alguns macetes deste sinistro jogo. Pior seria baralho. Pois em se tratando de cartas a sorte fala mais alto. E a sorte, como se sabe, é parente em primeiro grau da Senhorita Morte, a grande dama, a deusa que todos cultuam, normalmente sem saber. Entre xadrez e cartas, chegamos eu e ela a um consenso: dominó.

No meu cafofo subterrâneo, com os comuns e periódicos tremores causados pelo metrô bem ao lado, na pequena sala iluminada por uma cansativa lâmpada fluorescente econômica, fui eu ao canto onde fica minha jukebox antiga, claro, com duzentos e cinqüenta compactos antigos, claro, no seu interior. Na excêntrica máquina – meu único objeto de valor, além das cabeças de pedra-pomes vindas da Toscana – vários discos de rock’n’roll, algum jazz, uns standards, e ali no meio, o único disco de música brasileira, um compacto de João Gilberto cantando “Chega de saudade”. Tantos discos de rock pro bracinho automático pegar e ele me pega justamente o único disco produzido no hemisfério sul. É a sorte. Então minha adversária me perguntou que música era aquela – e as pedras de dominó já despejadas na mesa. Ela, tão habituada com roqueiros suicidas, não conhecia a Bossa Nova. E eu que pensei que o estilo fosse mais conhecido no nosso globo, e talvez até fora dele, respondo a ela: isso é bossa nova, é muito natural, e me espanta que você não conheça.

Começamos o jogo. Antes da máquina começar o “roquenrou” por vir, os alto-falantes da minha querida máquina encantada começam a esvaziar da sala o samba de João, que canta os últimos versos da canção, “não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Vivo, venci a primeira partida. Acho que João salvou minha vida.”

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