por Luciano Fortunato
Homenagem ao monstro – Era eu um dos quarenta e poucos homenageados da noite. Homenagem feita pela Câmara Municipal de Mendes aos cidadãos que se destacaram no último ano. Uma medalha grande, muito bonita, dentro de um estojo de camurça azul marinho também muito bacana. O que eu fiz pra merecer isso? Ora, participei, entre outras coisas, da produção de um curta-metragem que fora exibido na televisão, sendo aquele um produto cultural que colaborou de forma inquestionável para a divulgação de nosso pequeno município país afora. Afinal, muitos pagam caro para ter alguns segundos na TV, enquanto o Cachorro-Quente Vodu – o filme a que me refiro – foi exibido sem qualquer ônus para nossa cidade, pois tudo foi viabilizado pelo sucesso do amigo Elano Ribeiro, um dos quarenta selecionados no Brasil para dirigirem seus curtas, com exibição previamente garantida, num projeto de incentivo audiovisual patrocinado pela Petrobrás. Por conta de toda a movimentação que foi gerada pela produção e exibição do filme, Elano, eu, e Ana Clara, a menina que brilhou como atriz principal, acabamos sendo, portanto, homenageados, juntamente com várias outras pessoas de vários segmentos da comunidade mendense, com a “medalha de honra ao mérito legislativo”.
É claro que fico feliz. Um vereador – vice presidente da Câmara – que nem é meu amigo me indicou para ser homenageado, sendo ele então o autor da homenagem. Ele, Rubinho, parece ser um sujeito com sensibilidade, alguém que dá valor a iniciativas artísticas, e o fato de não termos qualquer laço de amizade dá credibilidade ao seu empenho, e dá ainda mais credibilidade e valor à minha medalha. A honra da medalha – que está atrelada, obviamente, à do Elano – eu divido com algumas pessoas, a saber: Mary Seabra, Ary Moreira, Emília Silveira, Juliette Silveira e Álvaro Alves. Este, o Álvaro, um cara muito mal compreendido em nossa cidade, uma pessoa que levantou sempre a bandeira da cultura. Foi através dele que tomamos conhecimento do projeto que viabilizou nosso pequeno, modesto, singelo e bonito filme de onze minutos.
E agora? De retorno à minha honrada insignificância caseira, o que fazer? Não que eu seja insignificante para os meus mais próximos. O fato é que minhas potencialidades artísticas – se é que são de fato existentes – não podem fazer minha família mais feliz. Provavelmente, muito pelo contrário. Artista não é gente. Ser artista é ser um E.T., é ser portador de uma doença. O meu lado artista me desumaniza. Nisso, a única coisa a meu favor é a possibilidade de relativização: é mesmo bom fazer parte da dita “humanidade”? Sou um monstro a publicar minhas esquisitices na Internet. Um monstro a fazer poemas e canções. Um monstro com uma medalha.
No Reino das Águas Claras eu seria um cano de esgoto negro, com minha estética torta. Sou um poluidor do rio da minha própria vida. E são tantas as fontes das quais me hidrato, a ponto de eu nunca saber se o que bebo é água ou veneno. Quero, egoisticamente, “diversão e arte”. Mas é isso a vida? Não seria ela um grande campo de batalha onde o que importa, de verdade, é comida, é sobrevivência? O fato de eu não gostar de conversar sobre dinheiro, ou melhor, sobre formas de ganhar dinheiro, preferindo sempre outros assuntos, parece-me às vezes uma postura brutalmente egoísta. A arte me parece um monstro devastador. O monstro da mentira que me capturou e me tornou monstro – um monstro que parece preferir arte a pão. Às vezes penso que mereço ser ridicularizado.
*
Doce ressaca do monstro – Pronto. Monstro posto, o que fazer agora? Deliciem-se os meus possíveis adversários com a carne fresca do monstro. Riam em escárnio. Conjeturem. Fucem o quebra-cabeça das minhas bárbaras confissões confusas. Usem minhas palavras contra mim: “– Vejam só! Ele próprio se declara monstro!” Mas quem seria eu a não ser o violentador de mim? Minha vítima sou eu. Meu inimigo sou eu.
Não sei se poderia eu usar a palavra escrita como expressão. Não sei por que cargas d’água me dei o direito de usar o sofisticado recurso dessa literatura sem livros de papel. Quem me lê, quase sempre lê mais de uma pessoa, pois sempre tenho mais de duas caras e dois corações. Talvez fosse melhor então ler outra coisa. Ou não tentar me compreender através do que eu escrevo, pois isso só dificultará as coisas. No começo deste texto, há umas cinco horas, antes do intervalo ao qual me reservei – pra se ter uma idéia do que eu estou falando – eu estava me sentindo um lixo humano. Agora não mais. Um cochilo. Um pedaço de pão. Umas azeitonas pretas. Um pouco de doce de laranja amarga. Um pouco de mingau com canela servido por Mary, e sou um novo homem. E assim vou me morrendo e me refazendo nestas bipolaridades. Há pouco eu era um verme rastejante sobre meus restos podres. Agora sou um artista relativamente contente em frente ao teclado escrevendo essas coisas, com meu headphone, meu disc-man, ouvindo as músicas que gosto. A propósito: o disc-man tem substituído meu carro velho e com defeito com relativo sucesso. Com este aparelhinho que acabei de comprar por um preço de banana, minhas caminhadas tem sido tão menos enfadonhas... Ainda pretendo conseguir uma vitrolinha portátil pra ouvir meus velhos discos de vinil com meu amigo maluco Marcelo Maia comendo carne e tomando uma bela cerveja numa mesa de bar.
Artista? Eu? Artista é o caramba!
sexta-feira, 17 de julho de 2009
sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Bertolucci que me faltava
Eu, cinéfilo de meia-tigela, não conhecia La Luna
Foi há muito tempo – há muito tempo mesmo – numa sessão das oito no extinto Cine Guanabara que estava eu, acompanhado de um amigo e sua família católica, num cinema completamente lotado para assistir a Jesus de Nazaré, de Franco Zefirelli. Contando há quem não acredite. Depois de passarem o saudoso programa Canal 100, com os jogos de futebol magistralmente registrados em película, vieram os traillers, que, para espanto geral, não eram, naquela noite em especial, muito ortodoxos, ou seja, não eram muito católicos – entre a meia dúzia de filmes anunciados antes da atração da noite, havia pelo menos 3 deles com cenas de sexo. Uma cena com um casal fazendo amor na praia com seus corpos na penumbra, outra com um casal nu, agarrado, rolando na grama, outra com um bacanal num saveiro e um rapaz se masturbando freneticamente. Um dos filmes eu me lembro do nome: O Sol dos Amantes, do qual nunca mais ouvi falar. Bem. O pai católico à minha esquerda tapava os olhos da filha de 8 anos. Os adolescentes nas fileiras de trás assoviavam de forma entusiasmada. Não é sonho. Isso aconteceu mesmo. E estávamos ainda na ditadura militar, saibam. Só que o Cine Guanabara era um tipo de território livre, anacronicamente às avessas. À beira da falência, aceitava menores pagantes para assistir a pornochanchadas. Eu mesmo fui um deles, sempre na esperança – e quase sempre na certeza – de poder entrar pra ver filmes proibidos para menores. Mas o caso dos traillers na sessão de Jesus de Nazaré foi mesmo o cúmulo da falta de organização e de vergonha.
Quanto às famílias católicas, ao zeloso pai a tapar os olhos da filha, eu fico imaginando o que sentiriam se assistissem La Luna, de Bernardo Bertolucci. Eu não sabia, La Luna foi exibido nesta mesma época naquele cinema. Outro dia uma amiga me falou sobre o filme, que assistiu naquela sala e gostou muito. Me surpreendeu que ela tivesse mesmo gostado do filme, já que, embora eu ainda não o conhecesse, sabia se tratar de um filme com uma trama que envolvia o assunto incesto. Um detalhe importante é que minha amiga é evangélica. Isso poderia fazer pensar que ela atiraria pedras no filme. Mas, ao contrário, ela me descreveu o filme como muito belo. Mas há um detalhe sobre essa minha amiga. Ela é muito ligada a temas psicológicos, leitora de Freud, Piaget e toda sorte de livros de psicologia. Isso explica, em parte, o fenômeno. Voltarei a falar sobre o filme com ela, qualquer dia desses.
La Luna, produção americana dirigida por Bernardo Bertolucci, rodada em Roma, produzida em 1979, é um filme que não poderia ter passado tão despercebido como passou. Um moralismo da indústria cinematográfica – ou do próprio público, o que é mais provável – pode explicar o fato dum filme brilhante como este viver nesse ostracismo. Só no último domingo tive a chance de assisti-lo em meu DVD. Era o Bertolucci que faltava pra mim. O filme praticamente não é citado em listas, por isso não havia gerado meu interesse – eu, um pequeno fã da obra do grande diretor italiano vivo. Como eu pude não ter visto La Luna antes? É assim mesmo. Há também filmes do Wood Allen os quais ainda não vi. Até o emblemático Persona, de Ingmar Bergman, só fui assistir há poucas semanas, veja só.
Não é a primeira vez que escrevo sobre Bertolucci e sexo. Quando se pensa nesses temas associados, logo nos vêm à mente Último Tango em Paris, Beleza Roubada, e Os Sonhadores. Assistindo a esses 3 filmes temos a nítida impressão de que poucos cineastas falam de sexo com tanta contundência. Mas é importante evidenciar que o sexo não é tudo nesses filmes, e sim parte inseparável de um todo, como é a vida. De qualquer forma, para Bertolucci são preferíveis estórias que envolvam famílias atípicas. E para minha surpresa, o último limite da atipicidade eu viria encontrar, tardiamente, no filme La Luna. Com uma atuação hipnótica da, infelizmente, quase desconhecida atriz Jill Clayburgh, La Luna conta a estória de Caterina, uma mulher que vive intensamente uma relação de afeto (amor, ódio, busca de auto conhecimento) com seu único filho. Joe, o belo rapazinho de dentes irregulares, o menino de cidadania americana, não sabe que é filho adotivo por parte de pai, assim com não sabe que é italiano, e filho de um italiano. Com a morte do infeliz pai americano – é impressionante a cena do enterro –, mãe e filho viajam para a Itália onde buscam reencontrar o rumo das suas vidas. Respeitada cantora de ópera, Caterina vê diante da nova vida um vigor esquecido. Aprimora seu canto, intensificando-o, e sendo cada vez mais reconhecida por seu talento. Tenta reaproximar-se afetivamente do filho – algo que houvera negligenciado em sua infeliz vida na América. Nesta busca pelo entendimento do (e com o) filho, descobre que ele está viciado em heroína. Então abandona a música – ofício no qual depositara toda sua paixão – para dedicar-se ao confuso e dependente rapaz. No entanto, a não menos confusa e dependente mãe, com essa intensa aproximação, deixa aflorar em si sentimentos em relação ao filho que personificam o mais rígido dos tabus sexuais, numa montanha russa de sentimentos, que falam de culpa e desejo, de interação entre presente e passado. Talvez falem de um passado mal resolvido à costa do Mediterrâneo.
Sim, perturbador e cheio de humanidade, La Luna é, sem dúvida, o mais chocante filme de Bertolucci. E certamente um dos mais chocantes filmes já produzidos. Um prato cheio, uma refeição completa para os freudianos, e indigesta para os puritanos. O que diria o papai à sua filhinha diante de algumas cenas do filme? O que diriam aos seus filhinhos as cuidadosas mães que jamais pararam para pensar no assunto. Que assunto? O fio, tenso ou frouxo, porém irrompível, que liga mães e filhos, do nascimento até sempre. A frágil fronteira entre os sentimentos que regem o nosso estar social e sexual, orientando nosso comportamento regulado por mecanismos morais de defesa. A proximidade entre libido e afeto. De fato. Não sejamos radicais. Este não é mesmo um filme para se assistir em família, depois da novela. Ele não deve, na verdade, ser assistido por qualquer pessoa. Seu público é específico. A intensa viagem psicológica de La Luna, me faz agora ver o eterno Último Tango em Paris como um mero passeio sensual – e olha que estou falando deste que é um clássico indiscutível do cinema erótico.
E ainda há tempo para outros temas em La Luna. A música, por exemplo, é de uma força impressionante no filme. Em alguns momentos ela é algo orgânico para a trama, como a seqüência da chegada do piano, ou como na emocionante cena final. Os bastidores da ópera ocupam também lugar de destaque, em cenas especialmente atraentes – poucos filmes não-musicais tiveram sets de ópera tão bem cuidados. Toda a relação da personagem central com sua própria voz é de uma emocionante musicalidade. Até mesmo quando grita, Clayburgh é musical. O contraste de culturas também é tocado pelo filme. O rapaz americano, com seus tênis All Star, é mostrado como um corpo estranho nas ruas de Roma. Sofre com a solidão. E como se sentem solitários Caterina e Joe...
Com roteiro original do próprio Bertolucci (toda e estrutura e construção dos personagens pode fazer-nos pensar que se trate de um roteiro adaptado), e a bela, e em muitos momentos inventiva, fotografia de Vittorio Storaro, este é o filme que salvou meu domingo de pré-verão. Apesar do tema espinhoso e enfumaçado, o filme é, na verdade, um domingo. Um domingo de sol ao Mar Mediterrâneo.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008

o homem bom
o homem bom desafia lúcifer
o funcionário de deus
lúcifer, o mordomo,
o espião, o capitão,
o inquisidor de deus
o homem bom cheira a flor
o homem bom inveja os heróis
por saber não poder ser tão herói como almeja
pois o homem bom é um poço da orgulho e vaidade
e tem em si o inimigo mais querido
o homem bom adora as mulheres
adoração de curvar-se mesmo
ele traz lembranças do calor do útero materno
ele reverencia cada útero que encontra em seu caminho
pois um útero para ele é um deus
o homem bom jamais esquece seus erros
é escravo da sua imperfeição
mas perdoa aos outros como gosta de se perdoar
tropeça, sangra o dedão
e segue de pé, na contramão de uma trilha
o homem bom pensa nos outros homens e mulheres
e o faz em tempo integral
e não esquece de nada, por saber
que a memória vale mais que a hora
hora é éter: memória é ouro
é mau o homem bom
é egoísta como um santo o homem bom
quer que o mundo fique melhor pra si, vejam só
mas um mundo melhor para todos
é apenas um efeito colateral do seu mundo perfeito.
(manhã de domingo, 12 de outubro de 2008)
sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Um triste aniversário
Luciano Fortunato Silveira
fortsilveira@yahoo.com.br
Ao começo deste mês outubro faz um ano do trágico caso dos três rapazes que foram mortos carbonizados, próximos à via férrea por onde trafegam grandes riquezas que passam por nosso município sem que delas desfrutemos. Na ocasião escrevi um texto sobre o ocorrido. O meu texto foi rejeitado por dois órgãos de comunicação regionais. Talvez em face desse ufanismo que nos faz pensar que vivemos em um paraíso, onde reina a paz, a ética e a boa moral. Um deles me propôs até a mudança de uma frase que foi julgada inadequada. E quando ao título que naquele momento dei à matéria “O dia em que a cidade sorriu diante da morte”, eu acrescentaria, hoje, um subtítulo importante, ficando “O dia em que a cidade sorriu diante da morte: ou pelo menos uma parte dela”. Agora o texto está sendo publicado na íntegra, como segue:
“O dia em que a cidade sorriu diante da morte
Foi na nossa querida cidade, Mendes, mas poderia ter sido em qualquer pacata cidade do nosso sul-fluminense, do Brasil ou do mundo.
Mendes sorriu. Três rapazes mortos eletrocutados. Seus corpos carbonizados, e, diante do quadro, uma platéia a comemorar a morte deles. Fotos espalhadas por toda a cidade. A tragédia transformada em espetáculo. Parece que nossos pacatos moradores não são muito diferentes dos de qualquer metrópole: são também insensíveis e cruéis.
Vivemos em um país dito cristão. Todo cristão deve conhecer a passagem bíblica em que Jesus proclama “...aquele que não tiver pecado que atire então a primeira pedra”. No entanto, a multidão de “santos” sentiu-se no direito de rir da desgraça alheia. Como se todos nós vivêssemos rigorosamente dentro da lei. Eu pergunto: quem nunca comprou um CD pirata ou outro produto ilegal? quem nunca se apropriou de absolutamente nada que não era seu? quem nunca praticou sonegação fiscal? quem de nós exige nota fiscal por um cafezinho ou um drops? E é bom que se saiba que quando deixamos de pedir uma simples nota fiscal – e nossos estudantes nem sabem o que é isto –, estamos desviando dinheiro que poderia estar indo para a saúde e para a educação, por exemplo.
Pois bem. Num sistema falho e corrompido – do qual somos coadjuvantes – ainda temos que conviver com a hipocrisia de parte da população que se considera gente 100% honesta, e que acha mesmo que a morte dos rapazes foi justa e oportuna. Alguns chegaram a lamentar o fato de um deles ter sobrevivido. Foram cabos elétricos. Mas se eles tivessem sido assassinados por uma milícia paramilitar – como essas que há nas favelas do Rio – o povo mendense não estaria menos satisfeito. Não me refiro a todo cidadão mendense, obviamente.
Aqueles jovens não nasceram ladrões. Não nasceram delinqüentes. E não tiveram tempo de se redimir. E, minha gente, isso não é engraçado. Não é satisfatório. Nenhuma morte pode ser considerada satisfatória. Se nossos adultos e anciãos fossem mais eficientes e justos (e não me refiro aos pais deles, e sim a toda nossa sociedade), casos como este poderiam ser evitados. Países com alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) – como Canadá e Finlândia – possuem baixíssimo índice de criminalidade. Praticamente não há roubos e furtos nas cidades finlandesas. Quanto a nós? Não temos nesse país educação de qualidade, não temos capacitação profissional, não temos empregos disponíveis, não temos distribuição de terra e renda: somos uma sociedade falida em todos os sentidos. Então resolvemos nossa angústia diante desta impotência como cidadãos, comemorando a morte de três rapazes pobres que tentavam furtar cabos. Estamos de parabéns.”
Na época em que o texto foi escrito, eu não havia ainda atentado para o fato de que o crime de Vilipêndio a Cadáver é punível com prisão. Muitos dos aviltadores que estavam no local do acontecimento, onde estavam aqueles corpos, poderiam estar hoje presos.
Penso, de maneira otimista, que Mendes não deve ser um resumo do mundo caótico e cruel em que vivemos, um micro-cosmo numa selva sócio-cultural onde tudo se repete, variando apenas em número e grau. Não, senhoras e senhores. Cabem, sei que sim, muito mais coisas, boas e belas, entre nossas discretas montanhas verdes. Isso depende, claro, da forma como usaremos a nossa tão conhecida paz.
(L.F.S.)
Luciano Fortunato Silveira
fortsilveira@yahoo.com.br
Ao começo deste mês outubro faz um ano do trágico caso dos três rapazes que foram mortos carbonizados, próximos à via férrea por onde trafegam grandes riquezas que passam por nosso município sem que delas desfrutemos. Na ocasião escrevi um texto sobre o ocorrido. O meu texto foi rejeitado por dois órgãos de comunicação regionais. Talvez em face desse ufanismo que nos faz pensar que vivemos em um paraíso, onde reina a paz, a ética e a boa moral. Um deles me propôs até a mudança de uma frase que foi julgada inadequada. E quando ao título que naquele momento dei à matéria “O dia em que a cidade sorriu diante da morte”, eu acrescentaria, hoje, um subtítulo importante, ficando “O dia em que a cidade sorriu diante da morte: ou pelo menos uma parte dela”. Agora o texto está sendo publicado na íntegra, como segue:
“O dia em que a cidade sorriu diante da morte
Foi na nossa querida cidade, Mendes, mas poderia ter sido em qualquer pacata cidade do nosso sul-fluminense, do Brasil ou do mundo.
Mendes sorriu. Três rapazes mortos eletrocutados. Seus corpos carbonizados, e, diante do quadro, uma platéia a comemorar a morte deles. Fotos espalhadas por toda a cidade. A tragédia transformada em espetáculo. Parece que nossos pacatos moradores não são muito diferentes dos de qualquer metrópole: são também insensíveis e cruéis.
Vivemos em um país dito cristão. Todo cristão deve conhecer a passagem bíblica em que Jesus proclama “...aquele que não tiver pecado que atire então a primeira pedra”. No entanto, a multidão de “santos” sentiu-se no direito de rir da desgraça alheia. Como se todos nós vivêssemos rigorosamente dentro da lei. Eu pergunto: quem nunca comprou um CD pirata ou outro produto ilegal? quem nunca se apropriou de absolutamente nada que não era seu? quem nunca praticou sonegação fiscal? quem de nós exige nota fiscal por um cafezinho ou um drops? E é bom que se saiba que quando deixamos de pedir uma simples nota fiscal – e nossos estudantes nem sabem o que é isto –, estamos desviando dinheiro que poderia estar indo para a saúde e para a educação, por exemplo.
Pois bem. Num sistema falho e corrompido – do qual somos coadjuvantes – ainda temos que conviver com a hipocrisia de parte da população que se considera gente 100% honesta, e que acha mesmo que a morte dos rapazes foi justa e oportuna. Alguns chegaram a lamentar o fato de um deles ter sobrevivido. Foram cabos elétricos. Mas se eles tivessem sido assassinados por uma milícia paramilitar – como essas que há nas favelas do Rio – o povo mendense não estaria menos satisfeito. Não me refiro a todo cidadão mendense, obviamente.
Aqueles jovens não nasceram ladrões. Não nasceram delinqüentes. E não tiveram tempo de se redimir. E, minha gente, isso não é engraçado. Não é satisfatório. Nenhuma morte pode ser considerada satisfatória. Se nossos adultos e anciãos fossem mais eficientes e justos (e não me refiro aos pais deles, e sim a toda nossa sociedade), casos como este poderiam ser evitados. Países com alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) – como Canadá e Finlândia – possuem baixíssimo índice de criminalidade. Praticamente não há roubos e furtos nas cidades finlandesas. Quanto a nós? Não temos nesse país educação de qualidade, não temos capacitação profissional, não temos empregos disponíveis, não temos distribuição de terra e renda: somos uma sociedade falida em todos os sentidos. Então resolvemos nossa angústia diante desta impotência como cidadãos, comemorando a morte de três rapazes pobres que tentavam furtar cabos. Estamos de parabéns.”
Na época em que o texto foi escrito, eu não havia ainda atentado para o fato de que o crime de Vilipêndio a Cadáver é punível com prisão. Muitos dos aviltadores que estavam no local do acontecimento, onde estavam aqueles corpos, poderiam estar hoje presos.
Penso, de maneira otimista, que Mendes não deve ser um resumo do mundo caótico e cruel em que vivemos, um micro-cosmo numa selva sócio-cultural onde tudo se repete, variando apenas em número e grau. Não, senhoras e senhores. Cabem, sei que sim, muito mais coisas, boas e belas, entre nossas discretas montanhas verdes. Isso depende, claro, da forma como usaremos a nossa tão conhecida paz.
(L.F.S.)
sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Viva O Rappa!
Perdoemos sete vezes – ou mais – os críticos que não sabem o que dizem.
Se pensarmos que os Beatles foram reprovados por boa parte dos críticos musicais contemporâneos seus, não nos incomodaremos com a morna recepção dada recentemente ao novo disco d’O Rappa – nós, que somos fãs do grupo. E me perdoe quem não gosta.
Há hoje duas correntes visíveis e importantes do jornalismo musical brasileiro. Vemos aqueles jornalistas que desprezam tudo aquilo que é sucesso de público, dando valor e tentando realçar os bons músicos que não conseguem grande projeção. Eles gostam de “samba de raiz”, músicas regionais, experimentalismos quaisquer, além de nomes que fizeram sucesso no passado e foram esquecidos. É um grupo de escritores, sem dúvida, na maioria das vezes, bem intencionado, que prezam a ética e a coerência. Uma outra corrente é daqueles que ficam esperando – e até alardeando – um “novo Jimi Hendrix”, um “novo Kurt Cobain”, um “novo Cazuza”, uma nova Gal Costa” – como se Gal não estivesse viva –, num insensato esforço de comparação. Eles são sonhadores nostálgicos, e, não raro, têm saudade de uma época que não viveram. Gente boa. Mas o fato é que esses dois exemplos de crítico musical não são do tipo – raro – que é capaz de fazer um grande elogio a um grupo que esteja sempre em evidência na mídia, como O Rappa, ainda que este apresente um trabalho de grande qualidade. Eles são do tipo que não deixariam os Beatles serem os Beatles – guardadas, obviamente, pois não sou trouxa, as devidas proporções entre Beatles e Rappa.
Sete Vezes, disco novo da banda carioca é, com licença, bom pra caralho. É um disco poderoso. Isso mesmo: poderoso. Os pontos positivos encontrados no novo trabalho são inúmeros. O grupo não perdeu a pungência das letras – o que alguns esperavam com a saída do genial Marcelo Yuka, 3 discos atrás –, não perdeu sua originalidade, adquiriu um entrosamento e uma técnica instrumental melhor – o que já se mostrava no disco acústico e pode ser sentido neste Sete Vezes à primeira audição, com os bons “riffs” de guitarra de Xandão e com o baixo límpido e firme de Lauro Farias. O multi-instrumentista Marcelo Lobato continua criando boas texturas com seus teclados e “derivados”, e a voz de Falcão é praticamente a mesma do primeiro disco da banda, quando eles eram apenas uma “reggae band”, só que, agora, com direito a maior liberdade às suas ininteligibilidades fonéticas – meu deus, mas o que é isso que eu falei?
Faixas – No primeiro verso do disco, Falcão reclama, com um lirismo místico inusitado, cantando “Meu santo tá cansado”, na canção que tem este título. Nesta faixa de abertura já se nota equilíbrio sonoro, num arranjo rico em detalhes e ruídos diversos, sem que o resultado fique confuso ou “estourado”. Uma guitarrinha meio “vintage” abre a segunda faixa Verdade de Feirante. Aliás, a guitarra de Xandão se transmuta no decorrer da música em algo à la The Edge, do U2. Na discografia da banda este é o disco em que o guitarrista
apresenta o seu melhor trabalho como músico – sem virtuosismo, porém eficiente. A faixa Meu Mundo é o Barro, um reggae típico, conta com uma letra que remete ao velho estilo do fundador da banda, o ex-Rappa, Yuka, em seus primeiros trabalhos, num tipo de crônica de homem simples e excluído. A canção começa: “Moço/ peço licença/ eu sou novo aqui/ não tenho trabalho nem classe/ eu sou novo aqui...”. E prossegue: “...sou quase um cara/ não tenho cor nem padrinho/ nasci no mundo /sou sozinho...”. Na seqüência a letra toca também na religiosidade: “...tentei ser crente/ mas meu Cristo é diferente/ a sombra dele é sem cruz...”. A faixa que batiza o álbum, 7 Vezes, é primorosa. É, diferentemente da maioria das músicas d’O Rappa, uma canção de amor – ao menos assim me pareceu. O ritmo é lento é ultra-agradável e o resultado é harmonioso. Monstro Invisível, que foi a música inicial de trabalho do álbum, já é tocada em todo o país. O refrão “...vejo a minha história com a sua comungar...” é incógnito e vigoroso. É claro que o monstro invisível do título não é o vocalista, mas, vou te falar: Falcão canta como um monstro, magistralmente – se não como um grande cantor, como um magnífico vocalista de rock. A décima faixa é Súplica Cearense, da obra do enigmático compositor baiano Gordurinha, que fez carreira no rádio nos anos 50. Seus maiores sucessos são Vendedor de Caranguejo e Chiclete com Banana. Gordurinha influenciou Zé Ramalho, Novos Baianos, Gilberto Gil e até Chico Science. Aqui em ritmo de reggae, Súplica Cearense é uma música que não pode deixar de ser notada, como um tipo de canção que já valeria o preço de qualquer disco. Homenagem oportuna que enriquece ainda mais este belo e extraordinariamente bem gravado novo disco d’O Rappa, banda da qual o Rio de Janeiro e o Brasil devem se orgulhar.
Sim, é verdade, se orgulhar. Sei que há hoje um grande preconceito contra coisas associadas ao funk, como é o caso do hip-hop. E O Rappa é uma banda que mescla, essencialmente, reggae, rock e hip-hop. Todos nos orgulhamos do samba, que tem raízes africanas; nos orgulhamos dos ritmos nordestinos, com um forte pé na Europa medieval; e reverenciamos grandes roqueiros brasileiros como Raul Seixas, mesmo sendo rock uma cultura nascida nos Estados Unidos. E é assim mesmo, não há cultura que não seja um processamento de influências, se formos pensar bem. Raul cultuava Elvis. Elvis cultuava o blues. O rock é uma atualização do blues. É, blues... Assim como jazz... São crias estadunidenses. Sem blues não haveria rock. Sem rock não haveria Beatles, sem Beatles não haveria a Tropicália e o Clube da esquina, por exemplo. A música popular viajou séculos até chegar onde estamos hoje, com o vasto cardápio do qual dispomos, onde uma banda pode ser naturalmente eclética, bebendo de fontes diversas, e ao mesmo tempo soar originalíssima e coesa como O Rappa. Se uma das melhores bandas pop-rock dos anos 90 é, de fato, o Rage Against the Machine, que combinou hip-hop e rock, e foi tremendamente influente, temos, provavelmente, numa linha parecida, algo ainda melhor: uma banda que acrescentou à mistura a voz da periferia carioca, o grito do cidadão oprimido e trabalhador, a voz do poeta popular brasileiro, na nossa invejável língua portuguesa.
Perdoemos sete vezes – ou mais – os críticos que não sabem o que dizem.
Se pensarmos que os Beatles foram reprovados por boa parte dos críticos musicais contemporâneos seus, não nos incomodaremos com a morna recepção dada recentemente ao novo disco d’O Rappa – nós, que somos fãs do grupo. E me perdoe quem não gosta.
Há hoje duas correntes visíveis e importantes do jornalismo musical brasileiro. Vemos aqueles jornalistas que desprezam tudo aquilo que é sucesso de público, dando valor e tentando realçar os bons músicos que não conseguem grande projeção. Eles gostam de “samba de raiz”, músicas regionais, experimentalismos quaisquer, além de nomes que fizeram sucesso no passado e foram esquecidos. É um grupo de escritores, sem dúvida, na maioria das vezes, bem intencionado, que prezam a ética e a coerência. Uma outra corrente é daqueles que ficam esperando – e até alardeando – um “novo Jimi Hendrix”, um “novo Kurt Cobain”, um “novo Cazuza”, uma nova Gal Costa” – como se Gal não estivesse viva –, num insensato esforço de comparação. Eles são sonhadores nostálgicos, e, não raro, têm saudade de uma época que não viveram. Gente boa. Mas o fato é que esses dois exemplos de crítico musical não são do tipo – raro – que é capaz de fazer um grande elogio a um grupo que esteja sempre em evidência na mídia, como O Rappa, ainda que este apresente um trabalho de grande qualidade. Eles são do tipo que não deixariam os Beatles serem os Beatles – guardadas, obviamente, pois não sou trouxa, as devidas proporções entre Beatles e Rappa.
Sete Vezes, disco novo da banda carioca é, com licença, bom pra caralho. É um disco poderoso. Isso mesmo: poderoso. Os pontos positivos encontrados no novo trabalho são inúmeros. O grupo não perdeu a pungência das letras – o que alguns esperavam com a saída do genial Marcelo Yuka, 3 discos atrás –, não perdeu sua originalidade, adquiriu um entrosamento e uma técnica instrumental melhor – o que já se mostrava no disco acústico e pode ser sentido neste Sete Vezes à primeira audição, com os bons “riffs” de guitarra de Xandão e com o baixo límpido e firme de Lauro Farias. O multi-instrumentista Marcelo Lobato continua criando boas texturas com seus teclados e “derivados”, e a voz de Falcão é praticamente a mesma do primeiro disco da banda, quando eles eram apenas uma “reggae band”, só que, agora, com direito a maior liberdade às suas ininteligibilidades fonéticas – meu deus, mas o que é isso que eu falei?
Faixas – No primeiro verso do disco, Falcão reclama, com um lirismo místico inusitado, cantando “Meu santo tá cansado”, na canção que tem este título. Nesta faixa de abertura já se nota equilíbrio sonoro, num arranjo rico em detalhes e ruídos diversos, sem que o resultado fique confuso ou “estourado”. Uma guitarrinha meio “vintage” abre a segunda faixa Verdade de Feirante. Aliás, a guitarra de Xandão se transmuta no decorrer da música em algo à la The Edge, do U2. Na discografia da banda este é o disco em que o guitarrista
apresenta o seu melhor trabalho como músico – sem virtuosismo, porém eficiente. A faixa Meu Mundo é o Barro, um reggae típico, conta com uma letra que remete ao velho estilo do fundador da banda, o ex-Rappa, Yuka, em seus primeiros trabalhos, num tipo de crônica de homem simples e excluído. A canção começa: “Moço/ peço licença/ eu sou novo aqui/ não tenho trabalho nem classe/ eu sou novo aqui...”. E prossegue: “...sou quase um cara/ não tenho cor nem padrinho/ nasci no mundo /sou sozinho...”. Na seqüência a letra toca também na religiosidade: “...tentei ser crente/ mas meu Cristo é diferente/ a sombra dele é sem cruz...”. A faixa que batiza o álbum, 7 Vezes, é primorosa. É, diferentemente da maioria das músicas d’O Rappa, uma canção de amor – ao menos assim me pareceu. O ritmo é lento é ultra-agradável e o resultado é harmonioso. Monstro Invisível, que foi a música inicial de trabalho do álbum, já é tocada em todo o país. O refrão “...vejo a minha história com a sua comungar...” é incógnito e vigoroso. É claro que o monstro invisível do título não é o vocalista, mas, vou te falar: Falcão canta como um monstro, magistralmente – se não como um grande cantor, como um magnífico vocalista de rock. A décima faixa é Súplica Cearense, da obra do enigmático compositor baiano Gordurinha, que fez carreira no rádio nos anos 50. Seus maiores sucessos são Vendedor de Caranguejo e Chiclete com Banana. Gordurinha influenciou Zé Ramalho, Novos Baianos, Gilberto Gil e até Chico Science. Aqui em ritmo de reggae, Súplica Cearense é uma música que não pode deixar de ser notada, como um tipo de canção que já valeria o preço de qualquer disco. Homenagem oportuna que enriquece ainda mais este belo e extraordinariamente bem gravado novo disco d’O Rappa, banda da qual o Rio de Janeiro e o Brasil devem se orgulhar.
Sim, é verdade, se orgulhar. Sei que há hoje um grande preconceito contra coisas associadas ao funk, como é o caso do hip-hop. E O Rappa é uma banda que mescla, essencialmente, reggae, rock e hip-hop. Todos nos orgulhamos do samba, que tem raízes africanas; nos orgulhamos dos ritmos nordestinos, com um forte pé na Europa medieval; e reverenciamos grandes roqueiros brasileiros como Raul Seixas, mesmo sendo rock uma cultura nascida nos Estados Unidos. E é assim mesmo, não há cultura que não seja um processamento de influências, se formos pensar bem. Raul cultuava Elvis. Elvis cultuava o blues. O rock é uma atualização do blues. É, blues... Assim como jazz... São crias estadunidenses. Sem blues não haveria rock. Sem rock não haveria Beatles, sem Beatles não haveria a Tropicália e o Clube da esquina, por exemplo. A música popular viajou séculos até chegar onde estamos hoje, com o vasto cardápio do qual dispomos, onde uma banda pode ser naturalmente eclética, bebendo de fontes diversas, e ao mesmo tempo soar originalíssima e coesa como O Rappa. Se uma das melhores bandas pop-rock dos anos 90 é, de fato, o Rage Against the Machine, que combinou hip-hop e rock, e foi tremendamente influente, temos, provavelmente, numa linha parecida, algo ainda melhor: uma banda que acrescentou à mistura a voz da periferia carioca, o grito do cidadão oprimido e trabalhador, a voz do poeta popular brasileiro, na nossa invejável língua portuguesa.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Texto escrito para o site Crônicas Cariocashttp://www.cronicascariocas.com/
Comentarista, sim. Crítico, não.
Meu pequeno museu de novidades
Após quase dois anos escrevendo sobre música para este super-elegante website, é provável que algum dos meus poucos leitores esteja a se perguntar “o que esse cara ouve em casa?”. Bem. É apenas uma suposição. Talvez ninguém pergunte isso. Me baseio no fato de que eu mesmo já me perguntei várias vezes o que os críticos gostavam de ouvir “de verdade”, fora das resenhas submetidas, como se supõe, a “obrigações estético-ideológicas” do jornalismo musical fascista. Não que eu também não seja vítima dessa síndrome de “inculcação” de gostos. Longe disso. Sou manipulado também. Contudo, dentro desse sistema de manipulação estética, crio meus “gostos” pessoais, que são muito, muito vastos, onde cabem Miles Davis, Belchior, Fábio Júnior, Benito di Paula e A-ha.
Eu não sou crítico musical, sou apenas um ouvinte de música e um modesto compositor, e vou até fazer uma confissão aqui que me descredibiliza: estou sem ouvir rádio há quase dois anos. E, na minha insignificância de “comentarista” de música, comentarei brevemente sobre o que tenho ouvido no último ano e meio, nas minhas feias, porém lindas, caixas acústicas de madeira.
Algumas notas – Acho que o “Sim”, da Vanessa da Mata, foi, verdadeiramente, o disco popular nacional mais importante do ano passado. Sensível, bem gravado, cheio de swing, feminino, autoral, confessional. Toda a badalação foi merecida. Aguardando estou o momento de assistir ao DVD da morena.
No começo de 2007 (e final de 2006) fiz grandes descobertas, graças ao sistema anárquico de compartilhamento de músicas na web, do qual sou defensor, com destaque para o nosso querido E-mule. E é isso aí. Tá sem grana? Vai lá e baixa o disco que tanto te interessa – não está roubando, mas, sim, “pegando” de um “amigo” que está disponibilizando aquilo. Embora eu adore entrar em loja de disco e comprar, é óbvio que não posso adquirir todos aqueles que desejo e “preciso” ouvir. Então, fazer o quê?
Antes de baixar da Internet, e ouvir pra crer, eu não compraria, por exemplo, um CD dos britânicos Arctic Monkeys. Agora, posso comprar de ouvidos fechados, pois o troço é muito bom. Um rock caótico, esparramado, cru, com um vocalista que me lembra muito o Lennon – eu acho. Não há virtuosismo: só um som nervoso e ao mesmo tempo simpático. E boas melodias também, não posso esquecer disso. // Outra grande descoberta foi a banda (americana? canadense?) Wilco. Eu já conhecia uma ou outra música do Wilco antes de baixar mais coisa deles. Mas agora... puxa vida... Depois de conhecer mais da banda eu digo que são excelentes. Seu último disco, “Sky blue sky”, é primoroso. Sabe aquele som novo com cara de velho? Pois é. Um pouco de country, um muito de blues, uma guitarra alucinógena e uma voz doce. Uma puta banda. // Um amigo me deu dois CDs da banda francesa Nouvelle Vague. E, vou te contar, ele me salvou da mediocridade. Quanta ignorância minha... O primeiro disco do Nouvelle Vague é de 2004 e só há dois meses os descobri. Isso é uma vergonha. Sabe como é o som? Pra quem não sabe, é o seguinte: um grupo de franceses apaixonados por punk, new wave e bossa nova, gravam covers de bandas como Joy Division , The Clash, The Cure, Depeche Mode, Dead Kennedys... tudo na voz de excelentes cantoras, que se revezam, cantando os sucessos, na maioria das vezes, executados em ritmo de bossa nova. Sem dúvida alguma, é a melhor bossa nova feita por gringos que eu já ouvi. Como escrevi no título de uma matéria para esta revista eletrônica, é uma “bossa nova punk”. Gente: ouçam Nouvelle Vague! // Na seção trilha sonora, ouço com prazer a trilha do filme Richard Linklater, Wanking Life, que, como tudo aqui, não tem nada de novo, composta pela Tosca Tango Ochestra. A Tosca... não é uma orquestra propriamente dita, mas um pequeno grupo de músicos que tocam tango com roupagem jazística. O resultado é delicioso, e, sim, novo. Pega bem com vinho. // Outro amigo me presenteou com os sete álbuns do Creedende Clearwater Revival. Mais uma vez me deparo com minha, cada vez mais evidente, ignorância musical. Eu só conhecia os hits do grupo. Mas que coisa... Estou apaixonado agora. Todos os discos são impecáveis. Tô sentindo que o som deles pode ter influenciado profundamente o Led Zeppelin. Querendo, grave qualquer um dos sete – todos são muito legais. Mas fuja das coletâneas. Pois nessas você vai perder as deliciosas faixas com blues de oito minutos, cheios de experimentações. É um rock básico. Mas dizer básico é pouco. É muito mais que isso. O Creedence parece ter feito uma ponte entre o rock tradicional dos anos 50 e 60, e o que viria, com hard rock como o conhecemos. // Na minha onda retrô, tenho aproveitado para preencher alguns hiatos auditivos, como o disco “I Got Dem’OI Kozmic Blues Again Mama!”, da minha grande dama Janis Joplin, que contém a canção “Try”. Gravado em 1969, ano em que nasci, o disco é lindo. Mostra que, além de “bluseira”, Janis deu gás também à soul music. // O papo está se alongando e não vou mesmo poder contar todas as coisas legais que tenho ouvido – na verdade mal comecei.
Acho que os arrojados e belíssimos últimos discos de Caetano e Djavan não tiveram a atenção merecida – principalmente o do Djavan, “Matizes”. Contudo, claro, há muito mais gente que merecia aparecer e não aparece, ou aparece muito pouco. O mercado ainda é cruel. Tá mais democrático, mas ainda é uma selva. E, diante do estado anárquico (e bacana) em que estamos vivendo, os nossos medalhões da MPB não têm muito do que reclamar, na verdade. Há, por exemplo, exímios compositores, instrumentistas e intérpretes de samba no Rio de Janeiro que ainda não saíram da garagem (digo, dos bares) e mantém sua música como hobbie, por força das circunstâncias mercadológicas.
Queixas à parte... Minha grande expectativa está para o registro em DVD dos shows de Marisa Monte, realizados no ano passado. Isso, me perdoem meus queridos amigos piratas da grande rede, eu faço questão de comprar na loja, “original”, no plástico, lacrado, e com papel de presente.
segunda-feira, 7 de julho de 2008

herói no espelho
então...
quem sou eu...
alguém que
sinceramente
gostaria
gostaria de fazer a diferença
salve quem sabe voar a todo o instante
salve quem arrisca a vida por baleias
salve quem atira coquetéis molotov
quem ama o mundo e as pessoas
quem o faz sem se apaixonar
quem vê as coisas
muito além da lente do próprio umbigo
além dos cento e oitenta graus nublados
mas quem sou se esforça
e luta contra o motor da mediocridade
essa máquina
que nos transforma todos em merda
quero aquilo que não tenho
até me emociono e compadeço
derramo lágrimas sinceras pelo alheio
porém, meu verdadeiro pranto
é pelo anti-herói que há em mim
o intelectual incipiente, pseudo-sábio
o herói incipiente, herói sem rosto
o desconhecido
artista rupestre de egoísmos
arquiteto de desculpas
a pálida dúvida
que atormenta
aniquila
pálida como sangue desmaiado
a dúvida que é um deus
um deus mau e blasfemador
minha dúvida deusa e irmã
a desconstruir
meus instintos genéticos
herméticos como maldição
sutis como maldição
minha dúvida
que é o meu oxigênio
vital e envenenado
quem sou?
sou o martelo
contra minha própria cabeça?
sou o flashback em forma de pão?
sou o manjar dos demônios?
sou o holocausto no tabernáculo?
sou o chipanzé vendo TV?
sou o papagaio poeta?
o destruidor de mim
a poeira de mim
a argamassa de mim
a construção da estrela que virá.
(L.F.S.)
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